HÚMUS — FESTIVAL LITERÁRIO DE GUIMARÃES

Os lugares

Guimarães

Casa do Alto, Guimarães. © Espólio de Raul Brandão | SMS

Guimarães é uma cidade que está intimamente ligada à vida de Raul Brandão. Foi em 1896 que o autor ingressou no Regimento n.º 20 de Infantaria, sediado na Cidade Berço, iniciando nessa altura uma relação profunda com o lugar, que haveria de inspirá-lo na escrita e no amor. Em 1897, Raul Brandão conhece Maria Angelina na mesma cidade, mulher com quem virá a casar e com quem ficará até ao final dos seus dias.

A 8 de maio de 1898, escreve ao seu amigo Columbano Bordalo Pinheiro: «Tenho a minha vida militar, os meus livros — e uma quinta que comprei e que quero pôr linda.» É nessa quinta que irá construir a famosa Casa do Alto, na zona de Nespereira. Acabará por ser transferido para Lisboa, no decorrer da sua carreira castrense, e a partir de 1912 instala-se em definitivo em Guimarães, com passagens regulares pela capital, onde passa habitualmente os invernos. É na Casa do Alto que toma forma Húmus, a sua obra mais emblemática, publicada em 1917. Sobre a sua visita à famosa casa, Teixeira de Pascoaes escreve: «Mais uma vez lhe agradeço as horas inolvidáveis que aí passei, nesse Alto, que é verdadeiramente uma das maiores altitudes da Europa contemporânea.»

Guimarães, raiz da árvore imensa, haveria de desentranhar-se em maravilhosos frutos. A vida e obra de Raul Brandão fazem parte dessa colheita.

Porto

Foz do Douro, Porto.

Raul Germano Brandão nasceu na cidade do Porto, freguesia da Foz do Douro, a 12 de março de 1867. Filho e neto de pescadores, passará na Invicta os primeiros anos da sua vida, ganhando aí o gosto pela escrita, que o levará a passar pelo Curso Superior de Letras. É no Porto que inicia a sua carreira militar, ingressando voluntariamente no Regimento n.º 5 de Caçadores d’El Rei, bem como a sua carreira de jornalista, escrevendo para o Correio da Manhã, de Pinheiro Chagas, entre outros. Frequentador da boémia portuense, vai privar com intelectuais, como o poeta António Nobre.

Regressará sempre ao Porto ao longo dos anos em que viaja intensamente pelo país, redigindo na Cantareira, Foz do Douro, o prefácio do seu primeiro volume de Memórias. É de lá que parte em direção a Lisboa em novembro de 1930, poucos dias antes da sua morte.

Por ocasião do centenário do nascimento de Raul Brandão, inaugurou-se na cidade do Porto um monumento dedicado ao escritor, na avenida Dom Carlos I. A antiga rua da Bela Vista, lugar do seu nascimento, chama-se hoje rua Raul Brandão.

Lisboa

Sé, Lisboa.

Lisboa foi sempre um dos lugares de destino de Raul Brandão. Foi ali que o autor saiu de cena na noite de 4 para 5 de dezembro de 1930, vítima de um aneurisma da aorta, perecendo na sua casa da rua de São Domingos à Lapa.

Raul Brandão chegou à capital em 1901, transferido por vontade própria para o Regimento n.º 2 de Caçadores d’El Rei, e foi lá que aprofundou a sua ligação ao jornalismo, colaborando intensamente com títulos como O Século, Diário de Notícias e O Dia. É neste que publica uma série de reportagens impressionistas, visitando cadeias, hospitais e manicómios, chamando a si o retrato dos desvalidos da sociedade. Aprimora a escrita romanesca — é deste período em Lisboa o livro A Farsa — e dedica-se também ao teatro, levando várias peças aos palcos da capital. Depois do regresso a Guimarães em 1912, é a Lisboa que Raul Brandão sempre volta para passar os invernos, mais amenos do que os do Minho, mantendo vivas as suas amizades no círculo das artes e letras.

Açores

Raul Brandão e sua esposa, Maria Angelina, nos Açores. © Espólio de Raul Brandão | SMS

A ida de Raul Brandão aos Açores acabou por marcar a literatura de viagens em Portugal. Dessa jornada nasceu o clássico As Ilhas Desconhecidas, retrato da passagem do autor pelos arquipélagos dos Açores e da Madeira. Quando se decidiu pela publicação em livro, Raul Brandão garantiu que o mesmo era «feito com notas de viagem, quase sem retoques». Natureza, paisagens e costumes, o mar em estado puro.

À medida que a viagem se desenrolava, as ilhas foram deixando as suas marcas, despertando alguns pontos de contacto com a obra de Brandão — a preocupação com os desapossados, o retrato próximo das gentes —, sublimando outros. A solidão insular, que molda a forma de viver. O exotismo daquele lugar distante de terra, a melancolia e a beleza que se retiram do azul do céu, «azul-pálido», e do «mar desmaiado» que se oferece aos viajantes. Abstração e sonho, como se as ilhas vivessem um amanhecer perpétuo, desconhecido dos continentais. Homens com «fisionomias de painéis». Negrume e sentido trágico, como nas narrativas clássicas de Brandão. A pesca da baleia, que faz esses homens deixarem enterros e casamentos; que faz que se escrevam relatos como As Ilhas Desconhecidas, autêntico manifesto literário inseparável dos Açores.

Raul Brandão