HÚMUS — FESTIVAL LITERÁRIO DE GUIMARÃES

Os livros

ficção

Impressões e paisagens

Porto, Tipografia de A. J. da Silva Teixeira, 1890.

O Padre

Lisboa, Livraria Central de Gomes Carvalho, 1901.

A Farsa

Lisboa, Ferreira e Oliveira, Editores, Livraria Ferreira Silva, s/d [1903].

Os Pobres (precedido de uma carta-prefácio de Guerra Junqueiro)

Lisboa, Empresa da História de Portugal, 1906.

Húmus

Porto, A Renascença Portuguesa, s/d [1917].

A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore, ilustrações de Martinho da Fonseca

Lisboa, edição da Seara Nova, 1926 (trata-se da 2.ª edição refundida de História dum Palhaço).

Portugal Pequenino (em colaboração com Maria Angelina), desenhos de Carlos Carneiro

Lisboa, edição dos autores, 1930.

O Pobre de Pedir (póstumo; prefácio de Maria Angelina)

Lisboa, Seara Nova, 1931.

memórias

Memórias, vol. I

Porto, A Renascença Portuguesa, s/d [1919].

Memórias, vol. II

Paris-Lisboa, Livraria Aillaud e Bertrand, s/d [1925].

não ficção

El-Rei Junot

Lisboa, Tipografia da Empresa Literária e Tipográfica (na capa), Livraria Brasileira de Monteiro & C.ª, Editores. Sobreposto, com carimbo, A Renascença Portuguesa (no rosto), s/d [1912].

A Conspiração de 1817

Porto, Tipografia da Empresa Literária e Tipográfica, 1914. Depositária Companhia Portuguesa Editora.

1817: A Conspiração Gomes Freire (2.ª edição da obra anterior)

Porto, A Renascença Portuguesa, s/d [1917].

Os Pescadores

Paris-Lisboa, Livraria Aillaud e Bertrand, 1923.

As Ilhas Desconhecidas. Notas e Paisagens

Paris-Lisboa, Livraria Aillaud e Bertrand, s/d [1926].

A Pedra Ainda Espera Dar Flor [dispersos], recolha, seleção e organização de Vasco Rosa

Lisboa. Quetzal, 2013.

teatro

Teatro, vol. I, A Renascença Portuguesa — O Rei Imaginário

Porto, 1923.

Teatro, vol. I, A Renascença Portuguesa — O Doido e a Morte

Porto, 1923.

Eu Sou Um Homem de Bem

Seara Nova, 1927.

O Avejão — Episódio Dramático

Seara Nova, Lisboa, 1929.

Jesus Cristo em Lisboa — Tragicomédia em Sete Quadros (em colaboração com Teixeira de Pascoaes)

Lisboa-Paris, Livraria Aillaud e Bertrand, s/d [1927].

História dum Palhaço (A Vida e a Morte de K. Maurício)

Lisboa, Livraria de António Maria Pereira, 1896.

excerto

«Singular ligação a destes tipos que o acaso reunia naquela casa de hóspedes da D. Felicidade: um doido, um anarquista, o Pita, a patroa, o Gregório, antigo chefe de repartição, que havia anos estava encarangado num quarto, uma velha que só saía de noite, e essa figura amarga, o Palhaço, que passava horas como se só a si próprio se escutasse. Todos tinham chegado ao fim da vida, de unhas arrepeladas para o gozo, com o aspeto das coisas servidas que se deitam fora. Usados pela existência, pela ambição e pela febre, arregalavam os olhos para a vida. Neles havia o que quer que era que inquietava e fazia pensar. Em vez de ficarem de uma secura atroz, tendo analisado de perto todos os sentimentos, o amor e a amizade, a experiência dera-lhes tintas de sonho ao desespero: e era como se um bicho de esgoto criasse asas e se pusesse a voar.»

sinopse

História dum Palhaço conta a vida e os anseios de K. Maurício, palhaço de profissão e pessimista por temperamento, apaixonado por Camélia, uma trapezista a quem não consegue descrever a sua paixão. Trata-se do primeiro romance de Raul Brandão, pelo qual passam os temas que hão de ser recorrentes na sua obra: a vida e a morte, o amor e a tragédia.

súmula bibliográfica

O tom existencial da obra ficcional de Raul Brandão está presente desde o início. Ao estrear-se com este romance, o autor abraça os temas que serão caros à sua obra, pegando no arquétipo do palhaço para dele extrair a inquietação, o assombro, a inadaptação perante aqueles que o rodeiam: os anseios, manias, idiossincrasias dos companheiros da casa de hóspedes; a atitude da trapezista Camélia, por quem o Palhaço se apaixona, perdendo-se de amores, ciúme e incompreensão. Contra as agruras do real, o sonho: é aqui que o Palhaço recolhe a inspiração para as suas atuações. A história trágica de K. Maurício é inicialmente contada na terceira pessoa, seguindo-se uma narrativa em jeito de diário, escrita pelo próprio. Em pano de fundo, as questões que assombraram Brandão. A condição humana. O certo e o errado. A vida e a morte.

Húmus

Porto, A Renascença Portuguesa, s/d [1917].

excerto

«Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem. Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita: — Eu não vivi! Eu não vivi! Eu não vivi! Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto? Por mais que queira não posso desfazer-me de pequenas ações, de pequenos ridículos, não posso desfazer-me de imbecilidades. Tenho de aturar ao mesmo tempo esta ideia e este gesto ridículo. Tenho de ser grotesco ao lado da vida e da morte. Mesmo quando estou só o meu riso é idiota. E estou só e a noite. Por trás daquela parede fica o céu infinito. Para não morrer de espanto, para poder com isto, para não ficar só e doido, se é que inventei a insignificância, as palavras, a honra e o dever, a consciência e o inferno. E ainda o que nos vale são as palavras, para termos a que nos agarrar.»

sinopse

Misto de ensaio, diário e romance, a acção de Húmus decorre numa vila, lugar povoado de personagens e de estados de alma do próprio autor. Um livro experimental que marca a literatura portuguesa e europeia, publicado décadas antes de movimentos como o nouveau roman.

súmula bibliográfica

Ficção com uma elevada carga existencialista, marca autoral de Raul Brandão, Húmus é uma das suas obras mais marcantes. Escrito entre novembro de 1915 e dezembro de 1916, este romance é uma versão maturada dos seus escritos anteriores, beneficiando de um momento da vida do autor já totalmente dedicado à escrita, no campo literário e jornalístico. Húmus é uma ficção pouco canónica, singular, que fugiu aos costumes literários da sua época e que deu sinal de uma extrema liberdade criativa. O lado metafísico, fruto da inquietação de Raul Brandão, acaba por dar o mote a uma obra que foi agente de mudança do género romance, sem que tal facto denote uma vontade programática de mudança. Com Húmus, Raul Brandão não procurou a renovação dos modos de fazer ficção; procurou, sim, corresponder a uma necessidade de partilha e comunicação que só poderia ser expressa deste modo livre, inspirado, abstrato, espiritual.

Vale de Josafat — Memórias, vol. III (póstumo)

Seara Nova, Lisboa, 1933.

excerto

«Eu tenho sempre medo dos homens que não querem Deus, para ficarem mais à vontade no mundo: desatam então aos pulos como bestas. É certo que tenho conhecido alguns seres extraordinários sem Deus nem religião. Mas esses tipos excecionais têm Deus lá dentro, quer queiram, quer não queiram, e às vezes mais luminoso do que os que andam sempre a falar n’Ele, como se Deus fosse uma cousa de trazer por casa.»

sinopse

Terceiro e último volume de memórias de Raul Brandão, publicado depois da morte do autor em dezembro de 1930, O Vale de Josafat está dividido em vários capítulos e considerações, entre as quais Balanço à Vida e O que vi e ouvi, retrato da cena política portuguesa durante a Primeira República.

súmula bibliográfica

Retrato de um homem e da sua época pelo punho de alguém que viveu mergulhado no seu tempo. Espiritual, política e literariamente. Raul Brandão despede-se da vida e dos seus leitores com serenidade, deixando para o futuro um tomo onde a escrita é mais equilibrada, desapaixonada, demonstrando um amadurecimento e uma postura típicas de quem atravessou provações e desilusões, vivendo para contá-las. O seu temperamento emotivo está mais domado, a sua objetividade mais aguçada, a sua ironia mais polida. Memórias, impressões, passagens pela infância, retratos. De tudo isto se compõe o último volume da vida de um homem. Também escritor.

As Ilhas Desconhecidas. Notas e Paisagens

Paris-Lisboa, Livraria Aillaud e Bertrand, s/d [1926].

excerto

«Lá em cima do poleiro o vigia ergueu-se de salto, deu sinal de baleia à vista com o búzio e todos os homens desataram a correr para as canoas. Nas Lajes, noutro dia, saía o enterro dum baleeiro morto no mar, quando do Alto da Forca anunciaram o bicho. Ia tudo compungido — ia a mulher compungida e os pescadores compungidos, o padre, o sacristão, a cruz e a caldeira — iam aqueles homens rudes e tisnados em passo de caso grave e fatos de ver a Deus — e logo a marcha compassada parou instantaneamente e mudaram instantaneamente de atitude: ficou só o padre com o latim engasgado e o caixão no meio da rua, e os outros, enrodilhados, levaram o sacristão, de abalada, até à praia. Baleia! Baleia!»

sinopse

Volume de escrita de viagens, As Ilhas Desconhecidas relata a passagem de Raul Brandão pela Madeira e sobretudo pelos Açores. As notas e apontamentos «quase sem retoques» tomadas pelo autor, então com 57 anos e já com uma obra literária de relevo, deram origem ao livro dois anos depois.

súmula bibliográfica

A 8 de junho de 1824, Raul Brandão zarpa a bordo do navio São Miguel rumo à Madeira e aos Açores — rumo aos ciclones, que apelam à disposição sombria do autor, à caça à baleia, à natureza exuberante, à essência das ilhas atlânticas que hão de marcar uma das obras mais emblemáticas de um escritor-repórter. A própria vida a bordo do vapor é anotada por Raul Brandão, mas é a atmosfera insular, e as suas gentes, que marca a obra. A partir do meio do oceano, conta as carências, o isolamento, o dia a dia dos estratos mais humildes, algo que acaba por ser transversal na obra de um autor humanista que quis retratar, de forma sistemática, o país e os seus desapossados.

Teatro, vol. I, A Renascença Portuguesa — O Gebo e a Sombra

Porto, 1923.

excerto

DOROTEIA
Os teus amigos enriqueceram, e tu não passas de cobrador duma companhia, sempre com o mesmo ordenado e as mesmas aflições.

GEBO
Deixa-me cá com a minha vida. Sabe Deus o que eu sofro para que vos não falte o pão.

DOROTEIA
Felizmente o meu filho não sai a ti.

GEBO
A ambição não é má, mas tudo se quer nos seus termos. Olha que já tenho visto muita coisa por esse mundo. Grande nau, grande tormenta. E lá fora na companhia, no comércio toda a gente diz: — O Gebo, que é como eles me chamam...

DOROTEIA
E tu consentes!

GEBO
Que lhes hei de fazer?... O Gebo é honrado.

DOROTEIA
Sempre foste assim! Até me fazes aflição!

GEBO
Paciência, mulher, paciência. Deixa-os lá. Mas quando dizem que sou honrado, isso consola. Cumpri sempre o meu dever.

DOROTEIA
Serviu-te de muito.

GEBO
Serviu...

DOROTEIA
O que tu tens sido é egoísta. Cumpriste o teu dever sem cuidares de que também tinhas deveres para connosco. Não aproveitaste as duas ou três ocasiões que te apareceram na vida para enriquecer — e levaste-nos para a desgraça e para a pobreza.

sinopse

O Gebo e a Sombra conta a história do contabilista Gebo e da sua mulher Doroteia, de quem o protagonista procura ocultar os desmandos e crimes de João, filho de ambos. Escrita na década de 1920, a peça O Gebo e a Sombra foi publicada pela Renascença Portuguesa num volume dedicado ao teatro de Raul Brandão, do qual também constam O Rei Imaginário e O Doido e a Morte.

súmula bibliográfica

Nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues, O Gebo e a Sombra é nada mais nada menos que «existencialismo avant la lettre». Gebo, sua mulher Doroteia e o filho de ambos, João, mais a nora Sofia são as figuras centrais desta peça em quatro atos, que explora as lutas interiores do homem confrontado com o seu meio e o seu destino, sinónimos de escravatura do dever. As personagens transitam do romance Os Pobres, e a sombra, presente no título da obra, assume o papel daquilo que se deseja mas que ao mesmo tempo se receia: um corte com a miséria e as obrigações. Uma mudança que não está isenta de medo e de drama. O espírito e a consciência do autor estão bem refletidos neste texto, ao longo do qual se procura saber se existe, se é legítima, a noção de dever moral, sobretudo quando este conduz à infelicidade.

Raul Brandão