Raul Brandão
HÚMUS — FESTIVAL LITERÁRIO DE GUIMARÃES

Olá, petizes! Deixem que me apresente.
Chamo-me Raul Brandão, mas os meus amigos chamam-me Brandinho.

Nasci na Foz do Douro em 1867. Sou filho e neto de homens do mar. É por isso que o oceano e as suas gentes são tão importantes nos meus livros.

A minha vida teve muitos lugares. Um dos mais importantes foi a cidade do Porto, onde entrei para a escola e passei a minha infância e adolescência. Não pensem que não andei às voltas com o português como vocês. Sabem que me juntei a um grupo com um nome difícil: os Nefelibatas? Ne-fe-li-ba-tas. Eu e outros escritores andámos à luta com as regras literárias e gramaticais.

Excerto

«Portugal, nos primeiros dias de primavera, é coberto de asas e o céu azul chilreia. Toda a gente espera as andorinhas. As rústicas escolhem os campos; e as outras procuram as vilas, as cidades, a convivência dos homens e os velhos beirais a cair para uma banda. Conhecem as pessoas, entram pelas janelas com familiaridade, e na antiga casa da aldeia até dentro da sala constroem o ninho. Batem nos vidros com a lama no bico — abram, abram! — até que lhes abrem a porta, criando numa trave pela primeira vez.

Conhecem Portugal a palmos: as eiras do Minho, com alguns punhados de milho e as vastas eiras do monte alentejano; os descampados do sul com alguns pinheiros mansos isolados, e o homem do Algarve que desbrava a terra a fogo e pesca o atum na costa. São elas que põem Portugal em comunicação com o céu, e que fazem a primavera nos primeiros dias de março. Não há verdadeira primavera nos países onde não há andorinhas.»

Portugal Pequenino

Escrevi este livro a meias com a minha mulher, o amor da minha vida, Maria Angelina. Foi o último texto que publiquei antes de deixar o mundo dos vivos, de onde parti em 1930, deixando saudades nos amigos e nos leitores, mas ficando para sempre com eles e convosco através dos meus livros.
Este livrinho, que tem ilustrações de Carlos Carneiro, narra as peripécias de dois companheiros, Pisca e Ruço de Má Pelo. Os dois amigos viajam pelas terras de Portugal e conhecem as gentes e os bichos do nosso país, umas vezes com os pezitos no chão, outras tomando de empréstimo as asas dos que sabem sonhar e voar.

Com eles, meninos, podem ver os pardais de Lisboa, os montes do Marão, as mil cores do mar da nossa costa, as flores algarvias, as planícies debaixo do sol alentejano... E muitas outras maravilhas e segredos bem guardados do nosso grande Portugal Pequenino.

Excerto

«Portugal, nos primeiros dias de primavera, é coberto de asas e o céu azul chilreia. Toda a gente espera as andorinhas. As rústicas escolhem os campos; e as outras procuram as vilas, as cidades, a convivência dos homens e os velhos beirais a cair para uma banda. Conhecem as pessoas, entram pelas janelas com familiaridade, e na antiga casa da aldeia até dentro da sala constroem o ninho. Batem nos vidros com a lama no bico — abram, abram! — até que lhes abrem a porta, criando numa trave pela primeira vez.

Conhecem Portugal a palmos: as eiras do Minho, com alguns punhados de milho e as vastas eiras do monte alentejano; os descampados do sul com alguns pinheiros mansos isolados, e o homem do Algarve que desbrava a terra a fogo e pesca o atum na costa. São elas que põem Portugal em comunicação com o céu, e que fazem a primavera nos primeiros dias de março. Não há verdadeira primavera nos países onde não há andorinhas.»

Clica nas imagens e descobre algumas páginas da primeira edição do Portugal Pequenino.

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Olá, petizes! Deixem que me apresente.
Chamo-me Raul Brandão, mas os meus amigos chamam-me Brandinho.

Nasci na Foz do Douro em 1867. Sou filho e neto de homens do mar. É por isso que o oceano e as suas gentes são tão importantes nos meus livros.

A minha vida teve muitos lugares. Um dos mais importantes foi a cidade do Porto, onde entrei para a escola e passei a minha infância e adolescência. Não pensem que não andei às voltas com o português como vocês. Sabem que me juntei a um grupo com um nome difícil: os Nefelibatas? Ne-fe-li-ba-tas. Eu e outros escritores andámos à luta com as regras literárias e gramaticais.

Em 1891 tive de me inscrever na Escola do Exército. Fui para lá contrariado, mas acabei por me tornar militar de carreira, o que foi bastante importante para a minha vida. É um bocadinho como ter de estudar uma disciplina de que não gostamos muito, mas que depois acaba por nos ajudar.

Já vos disse que sempre gostei muito de escrever? Mesmo fazendo carreira militar, nunca deixei de me interessar pela nossa língua. Pois é, tornei-me jornalista no semanário O Micróbio. Sim, naquela altura os jornais tinham uns nomes estranhos e engraçados.

Foi em 1896 que cheguei a Guimarães. Fui colocado no Regimento de Infantaria n.º 20. Aqui nasceu Portugal, e aqui nasceu também um dos meus livros mais marcantes, a História dum Palhaço.

Vou contar-vos um segredo. Essa coisa de que só as raparigas choram e têm coração... Bem, o que sei é que, quando conheci a Maria Angelina, o meu bateu tão forte, que quase me saltou do peito. Estão mesmo a ver, não é? Casámo-nos e, como ela era de Guimarães, construímos uma casa na freguesia de Nespereira, que ainda hoje lá está.

Em 1911, decidi largar as botas militares e atirei-me de cabeça à escrita. Sabem, quando nos dedicamos a sério a algo de que gostamos, somos imbatíveis! Com disciplina e trabalho, escrevi como nunca. Passava os invernos na capital, para fugir ao frio do Norte, mas as saudades de Guimarães eram sempre muitas. Rodeado de letras e mais letras, assim que apareciam as andorinhas, lá ia eu rumo à Casa do Alto para mais um verão.

Em 1917, publiquei o Húmus, um dos meus livros mais importantes. Mal eu imaginava que ia ser considerado um dos grandes romances portugueses do século XX! Dediquei-o ao grande pintor Columbano Bordalo Pinheiro, irmão do outro artista com o mesmo sobrenome, aquele que desenhou o nosso Zé Povinho. Já o viram por aí, não? É um maroto, está sempre a fazer um manguito com a mão!

Foi neste mês que parti para as ilhas da Madeira e dos Açores. Viajei muito pelo nosso país, e dessa marítima aventura de 1924 resultou o livro As Ilhas Desconhecidas, famoso ainda hoje. Os dois arquipélagos são banhados pelo oceano Atlântico, águas onde os meus avós viveram a pescar, junto ao continente.

Além de romances, reportagens e relatos de viagem, escrevi teatro. Não sabiam? Sim, tive a felicidade de ver as minhas obras representadas em palco por todo o país!

Agora, com a vossa licença, saio de cena, como fiz em 1930. Depois de uma vida cheia, os meus livros continuaram o seu caminho, e é através deles que espero continuar sempre convosco. O último que escrevi foi o Portugal Pequenino, porque a infância tem muitas histórias para mais tarde recordar. Gostava muito que conhecessem a Pisca e o Ruço e viajassem com eles pelo nosso país. Vemo-nos por lá?

Raul Brandão